Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Emerson Moino Martins

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O dinossauro filológico de Cristovão Tezza – por Emerson Moino Martins  – mai/2014

 

Pode-se dizer que é sobre os últimos pensamentos do dinossauro o romance “O professor” de Cristovão Tezza.

Dinossauro, não porque o autor fale a respeito, ou se quer, mencione o grupo de diversos animais membros do clado e da superordem dos arcossauros, que apareceram há pelo menos duzentos e trinta milhões de anos, mas porque conta os últimos pensamentos de um professor de filologia românica, matéria talvez extinta do interesse dos novos falantes de nosso idioma; ou ainda de forma mais soturna, porque descreve um protagonista velho e extinto diante do espelho, com a missão de “em 30 minutos, passar a limpo a (si) mesmo”. O dinossauro professor de filologia talvez seja a paródia jâmbica pontuada nos pensamentos desse protagonista; mas, o homem dinossauro, ser extinto diante do espelho, tentando recuperar suas imagens sínteses, é o cerne da trama, que se não é simpática ao leitor, pelo menos conta com sua velada empatia.

O romance toma seu curso durante o momento do despertar de um homem na manhã de sua homenagem de Mérito Acadêmico. Toda linearidade temporal é diluída no decurso de seu fluxo de pensamento, que ora mergulha na profundidade das memórias que marcaram sua vida, ora retorna ao seu presente.

O que encontra esse personagem Heliseu em suas memórias? Suas companheiras. Em seus últimos trinta anos de vida, o que salta de suas memórias é a história de seus relacionamentos, Mônica, Therèze, Dona Diva e a mãe. O personagem entende seu mundo a partir da relação com essas mulheres chaves, que lhe trouxeram o sentido de homem. Talvez o sentido de toda essa busca seja reencontrar sua mãe em todas elas, caracterizando a típica relação edipiana engendrada em todos os seres humanos. Mônica, esposa, mãe de seu filho homossexual, oriunda de fora do contexto acadêmico representa a ideia de modelo familiar de construção e desgaste. Therèze, a amante judia, surgida dentro de seu meio intelectual, é o contraponto ao peso do arquétipo familiar em crise. Com sua característica de mulher independente, areja sua vida e renova suas experiências. Dona Diva, a governanta, mulher assexuada, é quem o acompanha em seus trâmites finais e cotidianos de contato com a vida. Em todas elas, sempre uma busca cega pelo ideal de carinho, perdido de sua mãe, morta em um acidente. Curioso notar que em todo esse percurso, seguiu a instrução para a escolha da fêmea que seu pai lhe ensinou “case com uma mulher feia”. O autor tomou o cuidado de ressaltar que nenhuma das mulheres do Heliseu era uma beldade, destacavam-se e o seduziam por sua forma de ser, e não pela beleza.

Outro drama que flutua na viagem por suas memórias é sua relação com o filho. Mais que aceitação moral de sua natureza homossexual desse filho, fica intrínseca a dificuldade de reconhecimento de sua própria imagem refletida no filho nessa condição. Nessa relação não há uma negação ao filho, mas a negação de seus próprios fracassos no relacionamento com suas mulheres: “Senhores, o inimigo é uma mulher.

Cristovão Tezza, para trabalhar a intensidade desses dramas, cria um narrador que convenientemente se desloca da primeira para a terceira pessoa, cindindo a memória. Há momentos em que mergulha em um Heliseu analítico, distante, falho, para em seguida, retornar ao Heliseu pessoal, resultante desse outro Heliseu. Essa separação espelha a dificuldade que o personagem, e a maioria dos seres humanos, têm em entender a si mesmo. Torna-se mais fácil criticar um outro algoz, ainda que personificado de si próprio, do que a constatação do eu como fracasso. Nessa conveniente separação do narrador proposta pelo autor, a primeira pessoa é o eu vitima, resultado do outro eu que agiu.

O momento histórico, a década de 80, o contraditório surgimento da “nova república” brasileira, o fim das utopias que povoavam as cabeças da década de 70, serve a priori como pano de fundo de acontecimentos dessas memórias, mas, é possível pensar também de forma metafórica ao contrário. Podemos pensar que a representação desses fracassos sentimentais seja o espelho do fracasso desse momento histórico. O autor não resgata das memórias um herói de sua própria história, mas um homem comum, que falha ante sua própria moral.

Os momentos filológicos que recriados na narrativa, mais que uma caracterização do personagem Heliseu, podem ser entendidos como a busca por recuperar a memória do que vai sendo perdido nas transformações do cotidiano. A história que vai sendo perdida no uso da linguagem, sua gênese semântica. Esse movimento de resgate é também a tentativa de reencontrar os motivos que originaram os dramas do personagem, como a metáfora para entender as raízes daquele momento histórico.

O romance “O professor” expõe a obsolescência do homem ante a sua própria história; em resumo dos fatos, e em qualquer síntese que se tente produzir, ele será sempre o dinossauro deslocado de seu tempo.

 

 

 

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Ciclo CT – O filho eterno – Cristovão Tezza – por Victoria de Castro Polati

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Crítica Literária,do livro:o filho eterno -do escritor Cristovão Tezza. Victoria de Castro Polati

 

Caro escritor Cristovão Tezza,

De fato: dificil criticar,um grande escritor como você!

Que sabiamente usa,recursos Literários para manter o narrador,fora de

envolvimentos sentimentais,no caso seu próprio filho.

Sim,você conduz uma história emocionante,entre um casal e o nascimento

de um filho,com á síndrome de Down.

Numa linguagem clara,com muita coragem relata esta realidade dura,

especificada,comovedora,vividas entre você e sua esposa, quando nasceu

o seu filho Felipe.

Incrível seu estilo detalhista,de escrever.Pude vivenciar,as situações fiquei

triste e,indignada com á sua indiferença,diante os fatos:aceitar e só culpar,

sua mulher pelo problema.

Aliás no livro,você mal se refere á ela.

Até acredito,tenha sido proposital para provocar os leitores.

Enfim,ela me parece uma grande mulher,corajosa,assumi á culpa

para “consolar”você.

E conformada,na situação,sustentou você por muitos anos.

Também,encontrei dificuldades em ler seu livro,devido á letra miúda e o

pouco tempo para ler.

Senhor Cristovão Tezza,desculpe á sinceridade.Mas entendo que,numa Crítica

é preciso obcervar,apontar,o que apreciamos e o que nos incomoda.

Sem mais,seu livro nos faz refletir sobre á necessidade,de sermos útil á sociedade

participando,para diminuir as dificuldades dos deficientes.

Um abraço,Victória Polati.

Ciclo CT – O filho eterno – Cristovão Tezza – Delma

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Ao grande escritor CRISTÓVÃO TEZZA : bom dia !

(Perdoe! só digo versos …)

“MOMENTOS ESPARSOS DE VIDA”

(ao FELIPE)

A voz paterna ausente ecoa em mim ;

humilde vidinha recolhida…

No traço de seu livro, agora

ouví-a de forma comovente … !

Como é reconfortante conhecer

em si, a voz paterna ausente … !

Assim, em sua ação,

desvelar seu filho,

há determinação

na figura paterna

que você assumiu …

Minha mãezinha “LIZETE”, só

comigo, ainda nos braços,

num fatídico 24.08.54,

saímos do cortiço-Bangu,

zona norte do Rio

e no “EXPRESSO BRASILEIRO”embarcamos

com destino à Londrina, Paraná …

onde, pelas mãos daquele

mesmo Getúlio, quem implantara também

o “CAFÉ SOLÚVEL” do Brasil …

Minha mãezinha então, lá se empregara

como torrefadora

de café, tipo exportação …

Nos fundos de quintal

da casa dum tio, “Chiquinho”,

tal era toda nossa infância

gasta em meio à laranjeira,

de terra roxa onde brotavam

desde marmeleiro a caquizeiro

às grossas minhocas dos canteiros …

até os muitos ratos se instalavam

no forro da casinha pobre de madeira ,

taí … num resistente coletivo

ventre da mesma habitação …

O elo de vida perdido

pelo abandono de meu pai

a minha mãezinha e a mim,

isso trouxe-me a sós,

ao mundo parido, … nós ?!

Ecoa em mim sua voz :

o seu ensino de pai a filho,

quem nos desvenda alma

senão “FELIPE”, seu filho ?!

Nunca tinha sentido antes

esse grito tão plangente

na voz dum mesmo pai

ainda velando a gente …

Afeto sempre grato !

Desta, Delma .

Ciclo CT- O filho eterno – Cristovão Tezza – Eliana Stella

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O FILHO ETERNO Autor – Cristóvão Tezza – Eliana Stella –  Maio de 2014

Nada do que não foi poderia ter sido.

Herdeiro de uma geração que acreditava que tudo era possível, que mudança e transcendência estavam nas mãos dos jovens que podiam quebrar as barreiras de uma sociedade decadente, que não confiavam em ninguém com mais de trinta anos, Cristóvão Tezza nos oferece em seu livro O Filho Eterno, a oportunidade de refletirmos sobre a realidade do enfrentamento de fatos que não nos é dado mudar, das pedras no meio do caminho que podem destruir nossa crença no pensamento mágico que nos tentava a juventude.

A narrativa onisciente seletiva em terceira pessoa nos coloca dentro da cabeça de um indivíduo que chega à idade adulta sem ter atingido o que era considerado o status social definido: vive à custa da esposa, não terminou a faculdade, e almeja tornar-se escritor, apesar das tentativas frustradas.

Depois de buscar por vários meios libertar-se do sistema, pelo teatro, a aventura de estudante e trabalhador ilegal na Europa, havia cedido ao sistema e se casara. Desejava ardentemente ser reconhecido e admirado pelos outros como um adulto típico, ainda que cativo dos conflitos entre ideologia e inadequação, sonho e incompetência. Prestes a sedimentar uma de suas posições na vida, a de ser pai, a chegada de um filho, que lhe permitiria se impor frente ao grupo, amigos e parentes o frustra, uma vez que a criança é portadora de síndrome de Down, na época conhecida como mongolismo – ‘Nem filho sabe fazer direito… Que decepção’.

A reação do protagonista a esse acontecimento inesperado, descrita com objetividade e realismo, é mais comum do que possa parecer. É natural esperarmos que nossos filhos, como tudo o que produzimos, sejam motivo de admiração, que nos promovam aos olhos do grupo, que nos eternizem. Porém, um indivíduo com Down, é o filho eterno, tem limitações e não corresponde nunca a nossas expectativas de perpetuação por meio de nossos herdeiros. Felipe nunca seria capaz de conhecer sua obra.

O filho quebrou-lhe a espinha.

Difícil encarar nosso desejo primitivo de eliminar aquilo que nos confunde que não queremos aceitar. Ecos de uma pobreza imortal, que nos coloca de cócoras, reverberando pelos séculos a vergonha de estar vivo. Aquele nascimento às avessas expulsa o protagonista do paraíso, que perde o privilégio de ser livre.

O foco da narrativa, baseada na própria vida do autor, só foi possível depois de vinte anos. Relata a luta desse indivíduo em aceitar o filho. O percurso seguido por esse pai passa pela negação, e desejo de eliminar o que encara como problema a ser resolvido; a raiva, a sensação de injustiça para alguém que acreditava estar no caminho em busca do homem livre idealizado, do sonho rousseauniano, longe do sistema, estabelecendo suas próprias regras, e, ao invés disso, ter que aceitar o tratamento behaviorista do filho, sistema de regras impostas de fora para dentro.

Submete-se ao que seja necessário, na esperança de conseguir que Felipe supere suas limitações e se transforme numa criança ‘como as outras’. Sofre com a dura percepção implacável de ter passado para o outro lado, de estar condenado à escravidão do momento que não consegue dominar, para finalmente aceitar e descobrir a falta que o filho lhe faz, quando teme perdê-lo.

Assim, o filho adquire o direito de sê-lo, e ainda forja o pai.

Em suas reflexões ao longo do processo, relata seu caminho desde a infância à juventude, comum a muitos jovens daqueles anos em que se buscava o desenvolvimento interior, a transcendência, que nos levaria à liberdade total.

Considera ainda, como um paralelo, a ditadura no país, frustrando todos os sonhos democráticos dos povos.

O Filho Eterno, de Critóvão Tezza, é uma história de luta interior, escrita em linguagem clara e honesta, reflexo da realidade sem reservas, retratando não só o drama de um pai em formação, como de uma época que também sofreu grandes modificações.

Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Fabiano Fernandes Garcez

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O professor: A aula de Cristovão Tezza – Fabiano Fernandes Garcez – maio/2014

 

Um dos maiores romancista do país, sem sombra de dúvidas, é Cristovão Tezza. Publicou mais de uma dúzia de livros, foi traduzido para inúmeras línguas, com o livro O filho eterno, 2007, ganhou os principais prêmios literários do Brasil: Jabuti, Portugal Telecom, APCA, entre outros.

O professor é seu mais novo romance, divido em capítulos de aproximadamente dez páginas, de leitura fácil, fruída e melodiosa, experimente ler em voz alta! O personagem principal, Heliseu, é um velho professor de filologia que está prestes a ser homenageado pela universidade onde trabalha. O enredo centra-se nas poucas horas em que Heliseu tem para se arrumar e preparar seu discurso para a ocasião.

Um fato interessante da biografia de Tezza é que, antes de se dedicar exclusivamente à literatura, lecionou língua portuguesa na UFSC, outro fato curioso, em A suavidade do vento de 1991, o personagem principal também é um professor. Diferente deste o personagem de O professor não é escritor, observe o que Heliseu diz a respeito:

(…) – eu poderia ter sido escritor se tivesse tido coragem no momento certo”.

O livro foi lançado em 2014, e surpreendentemente apresenta fatos muito recentes, como, por exemplo, a renúncia do papa Bento XVI, anunciada em fevereiro de 2013. Esse fato por muitas vezes acaba por virar o parâmetro para a mudança dos tempos, pois Heliseu logo nas primeiras páginas anuncia ser um homem antigo.

Outra surpresa é o fato de inúmeras vezes o personagem, por ser filólogo, em alguns trechos narrar em português arcaico. O que é muito interessante para os amantes ou estudantes da língua.

O foco narrativo é o fluxo de pensamentos do professor horas antes da homenagem que receberá. Heliseu tenta não apenas imaginar seu discurso, mas também buscar o sentido da vida nele:

“– o sentido de sua vida, ele decidiu com um sorriso, quase sem ironia, o indicador e o polegar traçando uma linha horizontal imaginária no ar, (…) – o sentido da vida. De onde tirei essa expressão, alguém me disse isso falando sério”.

Ao organizar seus pensamentos e sua memória, sob os sentimentos de perda e: de culpa pelo falecimento da esposa, Mônica, ao cair do sétimo andar; de inabilidade de compreender as opções do filho e decisão de ir morar e constituir família nos EUA; de abandono, pois a amante, Therèze, que ao completar sua tese, com a ajuda de Heliseu, volta para a França; além da recordação do depoimento que dá ao delegado que cuidou do caso da morte da esposa, a quem chama de Inspetor Maigret, em referência explícita ao detetive de Simenon.

Heliseu relembra fatos políticos marcantes, divaga sobre suas causas e consequências, busca um inimigo a quem combater, enquanto se levanta da cama, vê a chegada da empregada de anos, toma café e se arruma para o evento.

Para unir fatos e memórias Heliseu simula seu discurso, dessa forma cria um interlocutor, a quem ele escolhe ser: Senhores, o que dá ao livro um interessante tom de oralidade:

“Eu estava, senhores, no meio do caminho: entendam”.

O que mais impressiona em O professor é destreza de Cristovão Tezza ao unir dois narradores: o primeiro é em primeira pessoa: os pensamentos de Heliseu; a segunda, em terceira pessoa: um narrador observador que serve como um auxiliar para o primeiro. Fazendo analogia ao cinema, é como estivéssemos vendo uma cena cuja câmera, em close, em Eliseu e ouvíssemos uma voz em off, — o narrador de primeira pessoa:

“Por que você não gosta dela? Eu senti ali o peso da ocultação, dela quem? – ela estava me enganando. O que, automaticamente, me dava o direito de – e Heliseu levantou-se do vaso, uma breve onda de suor na testa, apertando a descarga na parede como um gesto de apoio para o corpo que parecia tremer de frio (…)”.

Neste livro Tezza se mostra mais seguro de sua linguagem e de sua proposta literária. O professorHeliseu é um conservador estudioso do arcaico, da antiguidade, porém ao escavar os escombros de sua memória, percebe a inabilidade de se adequar a um mundo dinâmico em plena e eterna mudança e isso nem sempre, para ele, é uma boa notícia, porém para os leitores é uma ótima aula de literatura.

Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Vivian H. Schlesinger

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A causa secreta de Cristovão Tezza: a ambiguidade em O professor

Crítica de Vivian Schlesinger

maio/2014


O Professor Heliseu está confuso. Levantou-se da cama com o propósito de preparar seu discurso, que irá proferir ao receber o Prêmio de Mérito Acadêmico. Mas não sabe o que dizer. Sabe que não pode dizer tudo que gostaria. Seu discurso terá de ser ambíguo, como tudo tem sido em sua vida. Esse é o dom recebido de seu hábil criador, Cristovão Tezza.

Usando a memória como via de acesso, mas tempo e espaço como plataformas múltiplas de aterrissagem, Tezza leva seu personagem a contar duas histórias: uma pessoal, de um filólogo, amante mais das palavras do que das pessoas, e outra do Brasil, de milhões de pessoas comuns à mercê de seu tempo, política, economia, tabus. Enquanto Heliseu faz sua rotina matinal, detalhe por detalhe, “a enxugar os dedos, reentrância por reentrância, sentindo as calosidades”, machadianamente dentro de três cômodos (dormitório, banheiro, copa), vai conversando com si próprio décadas mais jovem, reconstruindo, “azulejo por azulejo” seu casamento com uma mulher mal-humorada, sua relação sempre ruim com o filho homossexual, sua paixão por uma aluna judia, francesa, vinte anos mais jovem. A cada movimento, seja escovar os dentes, desabotoar o pijama, sentar-se no vaso sanitário, Tezza desnuda esse velho até deixá-lo só com esperança de recomeçar: “Eu poderia ter uma longa conversa com o meu filho sobre o amor.

Mas engana-se quem procura pistas para um julgamento final: tudo neste romance é ambíguo. A começar do próprio protagonista, ora narrador de si, ora observador pretensamente objetivo, que não consegue aceitar as causas de descaminho de seu casamento. Na política, sua grande convicção é que ela é inútil, mas não enfrenta o patrulhamento ideológico da universidade, nem mesmo para afirmar sua neutralidade. No amor, ama, mas nem tanto – falha no momento em que é testado: esquece ou omite propositalmente o nome da aluna a quem tanto devia. Confessa, “tudo que havia de novo em meu trabalho tinha o dedo criador de Therèze (…) e no meu paper, por alguma misteriosa razão, eu não coloquei o nome dela em nenhum lugar…”

Contradições importantes também aparecem na esposa, “Mônica-mnemônica“, que, apesar da prodigiosa memória, não tem qualquer entendimento dos fatos que lembra obsessivamente. Sua sexualidade é posta em dúvida, pela presença da desagradável Úrsula, “que também implantou o cheiro de cigarro em casa” – aos olhos de um machista, uma marca masculina. O filho, Dudu, igualmente tem identidade sexual ambígua, mas de forma frontal, e esse é praticamente o único traço importante de personalidade que sabemos dele. Para entender Dudu, basta que o leitor aceite sua homossexualidade.

De longe, a maior complexidade está em Therèze, a amante quase-gazela. Feminina, mas muito independente, “um tesãozinho, cá entre nós, uma mulher meio despachada…” é toda mulher, mãe, amante, mas como todo judeu, tem identidade no mínimo dupla, judia e francesa. Essa ambiguidade surge no texto de forma recorrente, tanto no olhar da própria personagem (“Ninguém pode deixar de ser judeu; meu pai me disse uma vez, seria como o Ocidente renunciar a si mesmo.”) como do protagonista (“Therèze é nome de judia? Acho que você é uma cristã-nova, eheh.“) A complexa identidade de Therèze assume igual importância para Heliseu que para ela mesma. Nisso, Cristovão Tezza demonstra intimidade com literatura de temática judaica, de Kafka a Philip Roth, onde a busca pela identidade do judeu é um traço essencial.

Essa questão permeia o texto de forma sutil, mas medular. É através da observação cirurgicamente construída de Heliseu, por exemplo, ao ouvir uma conversa a respeito de Therèze, que o leitor percebe o antissemitismo discreto no ambiente universitário: “…a amante, mãe solteira, parece que judia (daquelas não praticantes, mas judeu é judeu)…” Ao mesmo tempo, com igual sutileza, o autor dá a entender que Heliseu não compartilha desse preconceito. O leitor sabe, mas não sabe como sabe. Quando Tezza afirma, em diversas entrevistas, que O professor é o romance de sua maturidade literária, está coberto de razão.

Enquanto Therèze busca definir sua identidade, ora aludindo à herança amorosa do pai, ora morando em Israel (“…eu preciso de um sentido.”), deixa claro que não depende de Heliseu para encontrar-se. Ele, ao contrário, percebe – ainda que tardiamente – que só estando em relação é que se sentia vivo. A independência quase militante de Therèze, que ele associa a seu judaísmo, é justamente o que o desestabiliza. Ele a perde não por uma questão religiosa, mas por questão cultural. Como que capitulando, ao final de sua carreira, nesse dia de homenagem, o que ele vê de si é uma imagem muito judaica: “há sempre um toque de holocausto num velho nu…” Só essa frase já valeira o livro. Mas há mais. Novamente, a maturidade literária, mas também a criatividade, brilham.

De personagens ambíguos, nenhum vence a misteriosa Diva. Boa, porque cuidou do menino durante os anos difíceis, mas com um toque de maldade no olhar. Dela sabe-se pouquíssimo além de que é morena, de religião evangélica, magra e silenciosa. Descendente de índios, parece ter sobre Heliseu um certo domínio shamânico. Quanto se deve ao que pode ter visto no dia da morte da esposa, e quanto durante todos os anos na casa, nem Heliseu sabe, mas teme. Mas Diva é quase só espectadora, está ali para testemunhar o ciclo de tragédia que acompanha a família, de geração em geração. Para começar, a mãe de Heliseu, que morre misteriosamente de uma queda, deixa-o com a certeza de que foi morta pelo pai por uma traição. Décadas mais tarde, é a vez da esposa, Mônica, cair para a morte, sem deixar certezas. O próprio Heliseu, que sofreu, na infância, abuso sexual nas mãos de um padre, e pior – que não obteve do pai a proteção contra esse fato grave – permitiu, quando foi sua vez, que seu filho, Dudu, fosse negligenciado por sua esposa e por ele mesmo. Como o narrador é Heliseu, ele não sabe o que pensa Diva, mas temê-la o obriga a recontar a si exatamente o que aconteceu, e com isso, encarar seus demônios internos. O que em tantos romances é resolvido com a facilidade de um diário, fotos ou cartas, constitui aqui uma sofisticada engenharia de descoberta. Um personagem quase mudo obriga o protagonista a falar tudo.

A técnica de Cristovão Tezza vai além. Importantes plot twists surgem e são rapidamente absorvidos na alternância de narrador em primeira e terceira pessoa. Fatos da história do Brasil dos anos oitenta e noventa são contados nas doses exatas da percepção que deles teriam – tiveram – os muitos milhões da classe média, no seu dia-a-dia. Os chavões repetidos pela massa ignorante, o ambiente universitário em sua sordidez e vulgaridade, o atual governo pouco diferente daquilo que prometia pôr abaixo, nada disso escapa às reflexões de Heliseu.

Mas não sem poesia. O presente é um tempo emparedado, azulejado, quase inabitável. Não por acaso, muito desta manhã se passa no banheiro, revestido de velhos azulejos, com rachaduras que surgem para permitir o mergulho desse velho em sua memória: Heliseu no país do espelho. Em momentos de triste lembrança, a rachadura desaparece da vista; volta a doçura da lembrança, volta a rachadura. Em um dos momentos mais tristes, Heliseu se lembra de quando Therèze lhe contou que esperava um filho dele, e ele, cavalheiro honrado, mas muito mais do que isso, imediatamente lhe propôs casamento. “Casar – que ideia! E, após um minuto de indecisão, voltou a me beijar para que eu não ficasse triste, e Heliseu sorriu, reencontrando na parede a fissura do azulejo que havia misteriosamente sumido de seus olhos.” A metáfora da fissura como rota de fuga é preciosa, dá densidade à busca do tempo perdido de Heliseu.

O perfeito equilíbrio entre o passado e presente; a sensação de vida atrofiada e estéril, repetida de geração em geração; a precisão de linguagem; tudo leva o leitor a crer que o final está decidido muito antes da última página. Mesmo assim, é impossível abandonar o romance, e com recompensa: como em Quadros de uma exposição, de Mussorgsky, o tema vai tomando volume, e dá fôlego para que a busca chegue a uma ponta de luz. O personagem parte para sua homenagem imbuído de força para recomeçar. Se a única vida que lhe resta é seu filho, as palavras de perdão entre pai e filho serão a “moeda corrente” para recuperar as chances perdidas da juventude. Esmagado com o peso maravilhoso de uma folha, o leitor vira a última página.

 

 

 

 

Ciclo ILB – ELIANA STELLA

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Por – ELIANA STELLA – 01/04/2014

CRITICA do Livro – ZERO,  IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 

MEA CULPA (?)

Tenho sessenta e quatro anos, sou brasileira e não havia lido Zero de Loyola Brandão. Quando Brandão acabava de escrever o livro, em 1969, eu acabava de entrar na PUCSP, mas num curso não reconhecido e vivia a ressaca de um ano nos Estados Unidos como estudante de intercâmbio. Viajara quatro dias num trem que levava soldados para o Vietnã. Vira e me fascinara com hippies distribuindo flores nas ruas de San Francisco. Nos pais ‘defensor da democracia’ tivera minha correspondência violada por acharem que eu era uma agente comunista infiltrada, só porque respondera honestamente em aula à pergunta de porque os latino-americanos se opunham à intervenção norte-americana em seus países….afinal, ‘somos países irmãos!’…

 

Tenho sessenta e quatro anos, li Zero, de Ignácio de Loyola Brandão pela primeira vez, porque faço parte de um grupo de leitura. Sempre preferi ler sobre a violência do homem contra o homem em língua e países estrangeiros, porque dói menos.

 

 

O LIVRO.

Com linguagem irônica, realista e insólita, gêneros e registros variados, Zero nos transporta pela insanidade da experiência humana. Escrito para denunciar uma época, trata de um enredo que vem se repetindo desde o começo dos tempos. O que varia é a aparência, o cenário, a linguagem, mas os humanos são sempre os mesmos.

 

A trama se desenvolve em um ambiente surrealista, cujos atores estão bem representados pelos habitantes do Boqueirão, vizinhança ao redor de um circo de excentricidades, administrada pelo protagonista, José, em que a atração mais popular é um ser humano normal. O autor ousou pintar e dar voz a seus figurantes e personagens, naquilo que cada um tem de mais autêntico, seus diferentes falares, registros. Dá voz, inclusive, a emoções como raiva e dor com criatividade bem própria, sem qualquer pudor.

 

A vivência jornalística do escritor está presente na forma fragmentária que caracteriza o romance, inclusive visualmente, com diagramação peculiar, seguindo colunas duplas dos jornais, pequenos comentários ou informes ao lado do texto, que interrompem a narrativa, inserindo o leitor nesse contexto polifônico, o circo em que os dramas e tragédias se sucedem.

 

O autor não suaviza a linguagem nem os temas, o que contrariou (e ainda contraria) as camadas mais conservadoras da sociedade do ‘país mais católico do mundo’, que apoiavam o governo em defesa dos ‘bons costumes’. As editoras brasileiras alegavam ser o formato não linear do livro impedimento para sua publicação. Assim, o romance foi finalmente lançado pela primeira vez na Itália, em 1974, cinco anos após sua conclusão. Chegou a vir a público no Brasil em 1975, sendo recolhido pela censura, logo depois.

 

O romance conta o trajeto de José, filho de mãe típica escrava do lar, católica fervorosa, e de pai que não podia ver rabo de saia. Aos dezoito anos, sai de casa, e o encontramos, no início da história, como matador de ratos em um cinema. Os ratos são eliminados e ele fica sem emprego. De subemprego a desemprego acaba se tornando franco atirador, envolvendo-se com as atividades revolucionárias de Gê, líder dos comuns – com letra minúscula pois assim determinava a lei.

José se casa com Rosa, que conhece por meio de uma agência matrimonial. Rosa, de passado duvidoso, trabalha numa lanchonete, e busca no casamento a redenção de seus ‘pecados’ e ascensão social: ela quer uma casa só dela, que possa mostrar às amigas, afinal, ‘quem casa quer casa. ’… e geladeira, fogão, sala de jantar completa…..

 

Rosa quer a vida ‘burguesa’ dos anúncios dos patrocinadores e das telenovelas. José não quer nada com a vida, fica contente por não ter feito nada, absolutamente nada, na vida. Não sente remorso e até se orgulha de suas contravenções que escalam para a criminalidade, culminando com o trabalho como matador. ´

 

A narrativa, ora em terceira pessoa, ora em primeira pessoa (as reflexões de José), é entremeada e interrompida por anúncios, inscrições de privada, jaculatórias, informativos, quadros, representações gráficas. Cada novo fato vem sob um novo cabeçalho, introduzindo ainda vários outros casos, como o insólito fim de Carlos Lopes, encarcerado pela morte do filho causada pela ausência de atendimento médico, que ilustra a realidade nunca solucionada do serviço público de saúde; ou a evasão dos cientistas e intelectuais do país.

 

A estrutura fragmentária do livro provoca no leitor a sensação de estar ouvindo a um jogral, talvez uma radionovela; ou, ainda, vendo um filme em que vários planos de consciência se misturam numa polifonia que envolve o leitor e o prepara para a inevitabilidade dos fatos.

 

Zero é uma viagem através do universo habitado pelo eterna confronto entre os poderosos, que chegam a extremos para homogeneizar a sociedade a fim de dominá-la, e aqueles que tentam sobreviver pela contravenção, não por uma luta ideológica, mas para se apossar das migalhas que conseguem apanhar pelo caminho.

 

 

‘PENSAMENTO DO DIA:

A cidade se humaniza. Meninas curradas

em plena luz do dia. Ladrões assaltam mulheres

que saem “as tardes para fazer compras.

Ladrões brigam com ladrões

e se matam, se assassinam.

Estaria sendo formado um Esquadrão Punitivo.

Já tinha existido um, anos atrás. Nos tempos heróicos. ’

 

O que foi que mudou?

 

‘…will they ever learn?