Nota

O poeta ou o crítico?

Sem exagero, podemos entender que no primeiro encontro de nosso 3º Ciclo de Críticas participamos de um momento histórico de nossa literatura, com a palestra de Carlos Felipe Moisés.

A gênese:  O enjambement do poeta

Foi corajoso, não teve o pudor em se mostrar. Começou de sua gênese, sua alfabetização poética, seus primeiros passos na compreensão desse universo.

O que poderia parecer uma mera revisão ingênua de sua trajetória acaba por  um resgaste consciente, sem exageros, da importância do poeta Mario de Andrade. Com  inteligência demonstrou o alcance da  obra desse poeta, pontuando os elementos dialéticos que o influenciaram:  “ter lido a Paulicéia desvairada foi minha carta de alforria: aprendi que o verso pode ter a medida determinada internamente pelo fluxo das emoções da própria ideia. O Verso pode coincidir com as unidades sintáticas; mas, se o poeta quiser, ele quebra o verso no meio: enjambement”

Entre o Poeta e o Crítico

O centro inicial de sua abordagem foi a obsessiva busca da dicotomia entre o poeta e o crítico. Encontra sua  voz, não no crítico, nem no poeta, mas no homem poético que dedicou – e dedica – sua vida à carpintaria das palavras:

“… me dei conta que o crítico não é levado muito a sério pelo poeta (…). O poeta sabe que o crítico força as coisas. O crítico é disciplinado, muito apegado à sequência lógica dos raciocínios. Isso é perfeitamente possível fazer, ainda que a matéria prima seja um amontoado de dúvidas, que o poeta sabe que o crítico tem, mas que o crítico aprendeu a esconder, a simular uma convicção de uma certeza que não tem. O poeta vive sob a permanente suspeição por parte do crítico. O critico acha que o poeta é excessivamente impulsivo, que não liga a mínima para a sequência lógica. O poeta se dá o direito de escrever quando tem muita vontade, o crítico não. O crítico é profissional, o poeta não é.”

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O poeta ou o crítico? – O erro.

Talvez a audiência que estava em nosso 3º Ciclo de Críticas com Carlos Felipe Moisés tivesse  a expectativa de descobrir, da boca do poeta,  o verdadeiro sentido de sua poesia: ficou sem saber.

Tu não verás, Marilia, cem cativos

CFM faz mais que leitura de seus poemas publicados (Inconfidência,  Boi raiado em penumbra, Gesto).  Demonstra o erro, a impossibilidade que existe na ambição de encontrar um sentido único na crítica da poesia.

Revelou, através das motivações que envolveram  a produção desses poemas, a  distância que existe até a interpretação lógica do poema. Deixou explícita  a fragilidade do processo de composição, o abismo existente ente a criação e a leitura:

-Você sabe o que essa interpretação significa? Nada.”  

Um poeta perdido no escuro da noite nula?

É assim que encontramos CFM. Entre diálogos com fantasmas de sua cultura, que deflagram seu fluxo de sentimentos intempestivos.

Sua desordem poética, ritmada, laborada à exaustão, continua: Os poemas inéditos (até agora), que generosamente nos trouxe, confirmam seu vigor na luta com as palavras, na contínua obsessão em propor múltiplas possibilidades de leitura de sua poesia.

O poeta ou o crítico? – O público quer a segurança.

Na rodada de perguntas abertas de nosso 3º Ciclo de Críticas com Carlos Felipe Moisés, o público pediu ajuda ao crítico.

Prevaleceram questões sobre a crítica literária. A audiência procurou a coerência da interpretação, a confirmação do palpável sobre o pensamento poético. O poeta ficou ainda misterioso, não pelo desconhecimento de sua obra, mas talvez pelo receio do público ante a insuficiência de sua leitura.

A inquietante lucidez

CFM fala que a ansiedade pelo estudo do absolutamente novo é, obrigatoriamente, limitado pelo pensamento sistemático da crítica acadêmica.

Constata o despreparo da formação dos alunos que chegam à universidade sem possuir uma mínima leitura esperada, para a compreensão dos desafios da  literatura.

O poeta ou o crítico? – O óbvio incomoda o vazio.

Terminando sua apresentação no 3º Ciclo de Críticas, Carlos Felipe Moisés desmonta o pedantismo vazio das frases de efeito de um suposto pensamento contemporâneo, através da simplicidade:

Mesmo se publicado, se o livro não for lido, ele não existe

É resposta óbvia à recriação do texto. Um princípio elementar, mas  esquecido na produção dos autores de crítica, que inventam interpretações infundadas.

Entre o Poeta e o Crítico, o professor deixa uma dica:

A crítica é um exercício, tentativa. Vai ser imparcial,  incompleta e unilateral. O que todo crítico faz é escolher um aspecto. Convém ao crítico ser humilde.”