CRÍTICA DE FABIANO FERNANDES GARCEZ AO ROMANCE O CÉU DOS SUICIDAS DE RICARDO LÍSIAS

BUSCA ALUCINADA

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Ricardo Lísias ainda está sob o estigma de um jovem autor, mesmo depois de ser finalista dos prêmios Portugal Telecom de 2006, com Duas praças, Jabuti de 2008 com Anna O. e outras Novelas, ganhar o São Paulo Literatura de 2010 com O livro dos Mandarins, anteriormente já havia publicado Cobertor de estrelas (1999),  Capuz (2001), Dos Nervos (2004) , e os infantis: Sai da Frente,Vaca Brava (2001) e Greve Contra a Guerra (2005).

Em céu dos Suicidas (2012) temos a perspectiva do narrador e protagonista Ricardo Lísias: é um especialista em coleções, que ao longo da vida se desfez das suas, porém está em busca de um item valioso que se perdeu, sua procura são os motivos que levaram seu melhor amigo André a cometer o suicídio, com isso fatos passados e presentes embaralham-se nesta busca alucinada de alguém que se sente culpado por não perceber como uma vida podia ser salva. Já que não pode salvar seu amigo em vida, tenta salvá-lo na morte: quer ter a certeza que seu amigo foi para o céu, já que para várias religiões os suicidas não têm esse direito.

Coincidência ou não, Ricardo Lísias dedica o Livro dos mandarins a André Silva, um amigo que morou com ele em uma república na Unicamp e que se suicidou. Outra coincidência é o personagem protagonista e narrador da trama ter o mesmo no nome do autor, o que torna difícil para o leitor identificar o relato como uma narrativa biográfica ou ficcional.

Ao confundir o personagem com o autor alguns leitores acabam por confundir o escritor com o personagem. Ricardo Lísias, o escritor, conta que isso já lhe trouxe algumas complicações, pois um leitor disse que esperava que ele fosse agressivo da mesma maneira que seu personagem.

Estruturado em 90 capítulos de, em média, uma página, perfeitos para quem tem pouco tempo para ler ou tem de se valer de uma leitura fragmentária, pois cada micro-capítulo apresenta unidade narrativa, assim pode ser lido como pequenos contos autônomos.

O autor utiliza essa estrutura, segundo pesquisas, pois surtos psicóticos têm curta duração, assim o narrador por estar em processo de surto, vai ao longo do romance se transformando, ao ponto de por diversas vezes sua mãe dizer que não o reconhece. Com o passar das páginas o narrador vai se mostrando cada vez mais rancoroso, irritadiço e agressivo com as pessoas que lhe cruzam o caminho. Palavras, mais precisamente verbos, como: gritar e chorar são repetidas com grande frequência ao longo dos capítulos.

Ricardo Lísias, o narrador, vai adquirindo comportamento muito parecido com o que tinha André, rompe várias relações, inclusive profissionais. Talvez sua busca frenética acabe por fazer que ele se transforme no amigo, passa a apresentar taquicardia e suores, sintomas dos surtos ou de alguma síndrome, como a do pânico, por exemplo.

As histórias paralelas que surgem no romance, a árvore genealógica da família, a viagem ao Líbano e o passado do tio-avô acabam por ser uma crítica, não só as instituições, familiar e religiosa, como também à toda e qualquer tradição.

A linguagem leve, mas concisa, de forte base oral, alucinada e, por vezes, cômica torna a leitura de O céu dos suicidas muito divertida e agradável, porém isso esconde um árduo trabalho de reescrita, Lísias conta que escrevia cada capítulo, assim como todos os seus livros, à mão, em uma folha de papel almaço.

Lísias pesquisou por um período de seis meses sobre várias visões religiosas, filosóficas e da psicanálise sobre o suicídio. Para ele o processo de pesquisa é essencial para o embasamento do texto, segundo depoimento dado à revista Língua Portuguesa.

Neste livro seja pelo tema abordado ou pela forma criativa e intensa Ricardo Lísias, o autor, se consolida como um dos maiores nomes da literatura nacional.

Fabiano Fernandes Garcez

Jardim Alheio, 13 de Maio de 2013

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AS MINIATURAS de ANDREA DEL FUEGO por Sandra Schamas

07-_MG_2818.CR2Em Os Malaquias, a jovem escritora Andréa Del Fuego faz uma bela homenagem aos seus antepassados e ganha o Prêmio Saramago 2011. Conta a história dos seus bisavôs, que morreram atingidos por um raio deixando órfãos o avô e outros tios avós. Com narrativa emotiva, linear e encantadora a obra premiada já define o talento da autora na qualidade da trama bem construída.

Já no novo romance As Miniaturas, lançado em 2013 pela Companhia das Letras, Andréa surpreende pela criatividade. O conceito que perambula nas conversas literárias de que tudo já foi escrito perde seu rumo nas páginas do livro onde a história é contada por uma trindade: Oneiro, Mãe e Filho. Entre o urbano cru e o onírico-burocrático, a trama se desenrola no cenário de uma cidade que parece ser São Paulo. O ponto principal é o Edifício Midoro Filho, um prédio grande, com organizado e constante fluxo de pessoas que querem e precisam sonhar, apesar de não se lembrarem de nada depois. “O Edifício sugere o sonho usando o próprio, assim como a gramática usa a palavra para falar da frase.”  –  explica a autora perspicaz.

Oneiros e sonhantes encontram- se nas salas quadradas quase assépticas do estranho edifício, os primeiros como uma espécie de terapeutas dos sonhos; os outros como pessoas comuns que têm dificuldade para sonhar.  As duas palavras – oneiros e sonhantes – causam breve estranhamento no início, mas este logo se dissolve e acaba estabelecendo credibilidade dentro de um sistema que oscila entre o real e o imaginário. Os estímulos para o processo de sonhar apresentado pelos oneiros são “miniaturas  escuras, com brilho de plástico novo”, devidamente catalogadas e que podem ser um dinossauro, um rato ou um chapéu de Napoleão.

“ Quando os olhos dão cambalhotas debaixo da pálpebra, é sinal de que o sonhante está apto, vendo sistemas solares, invadindo a Rússia, emagrecendo a mãe, perdoando cães, dando palestra em Mônaco. Vou além das miniaturas, embora eu não assista palestra e nem saiba onde fica a Rússia.” Essa é a voz do oneiro – soprada por Andrea – que depois explica sua metodologia para crianças, adolescentes, adultos e anciãos.

Um oneiro conceituado deve ser muito bem treinado, seguir um rígido código de procedimentos e ter 25 miniaturas, no mínimo, além saber interpretar que sonhar com camelo, por exemplo, representa a volta de alguém que já o importunou. As leis são claras: não é permitido a um oneiro atender duas pessoas que sejam parentes. O que  narra história acaba desrespeitando o código por se dar conta, um dia, que atendia a mãe e o filho, e por um envolvimento incomum que acaba virando obsessão.

A mãe cuja narrativa arrasta o leitor para dentro de seus pensamentos, é motorista de táxi e luta para criar sozinha o filho adolescente. O filho é frentista e sabe que a única maneira de silenciar a mãe é obedecer.

Outros personagens aparecem, como o gerente do posto de gasolina, a jovem esposa e seu bebezinho, uma vidente, que a mãe consulta para tirar dúvidas sobre a sexualidade do filho. Já o oneiro, que atende mãe e filho recorre, a uma “vidanta” do Edifício Midoro Filho para enxergar com mais clareza o próprio trabalho. O humor aparece em alguns momentos, na dose certa,  como na descrição das fotos de capa do Algodão, publicação interna que circula no Edifício.  “ Na capa de agosto puseram um camelo com deficiência visual, usava um óculos para não impressionar os leitores com os buracos no focinho.” […] “na capa de abril era uma borboleta idosa com falha nas asas.”

Andrea aplaude os escritores Ivana Arruda Leite e o Marcelino Freire. Com eles tem também, segundo ela, o privilégio de compartilhar trabalhos. Dos clássicos, “ouve” William Faulkner, Nabokov, Stendhal, Kafka, Melville e Machado de Assis. Desse amálgama precioso  tira a prata cristalizada e a transforma em maneira peculiar de colocar ideias e palavras no papel, e estas fluem como uma voz suave e resoluta a seduzir o leitor.

A realidade urbana e as pessoas comuns, oneiros e sonhantes,  videntes e vidantas se entrelaçam com jogo do bicho, tarot, interpretação dos sonhos e outros misticismos, trazem a mensagem: “se o sujeito que comanda os sonhos não é capaz de prever nada, os sonhos também não são.”

Além dos personagens tão bem estruturados que parecem com pessoas que encontramos a todo momento na cidade grande, o próprio Edifício Midoro Filho com suas estruturas visível  e invisível, o táxi como segunda pela da mãe, o posto de gasolina onde muito acontece, a Kombi, a segunda Kombi e até máquina fotográfica do filho ajudam a constituir o organismo independente, inteligente e autossuficiente que é o brilhante As Miniaturas.

Sandra Schamas

Jardim Alheio, 12 de dezembro 2013

Crítica de Eric F. Dantas ao poema Paulistana de verão de Frederico Barbosa

EFD

A ETERNA PAULISTANA

No poema “Paulistana de verão” (Landy, 2002), de Frederico Barbosa acompanhamos o percurso (in)certo da personagem pela cidade de São Paulo.

branca / segura a saia / surpreendente e mínima / como quem não / se sabe mostrar

A personagem é uma mulher branca e desajeitada caminhando pela cidade moderna e devoradora. Mas é uma mulher que quer firma-se também através do corpo ao vestir “saia surpreendente e mínima”. Mas nesse ato de coragem e ruptura a personagem aparece “como quem não / se sabe mostrar”, ou melhor, se mostra do seu jeito, um jeito muito particular. Na cena narrada, há perda da inocência, mas também certo pudor, pois no turbilhão da cidade moderna tudo é incerto, as reações podem ser imprevistas. A personagem sabe que pode correr riscos ao se expor ao público das ruas, pode ser vítima tanto do machismo como de opiniões mais conservadoras e politicamente corretas, em poucas palavras, ela é um alvo em potencial, por uma razão ou outra não vai passar despercebida.

no calor / desacostumada / insegura  / atravessa a rua / revela-se quase / sem querer

Na travessia pela cidade temos a personagem “no calor / desacostumada / insegura”.  Podemos traçar um paralelo com a canção “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A “Paulistana de verão”, de Frederico Barbosa é a anti-Garota de Ipanema. A comparação pode parecer injusta e fora de lugar, mas nem tanto. Apesar de serem diferentes Rio de Janeiro e São Paulo têm muitos pontos em comum, são cidades-personagens que fazem parte da nossa modernidade e do nosso imaginário cultural, inspirando músicos e poetas, podem ser consideradas as cidades que têm o melhor e o pior do Brasil. Pois bem, se a garota de Ipanema “É ela menina que vem e que passa / Num doce balanço, a caminho do mar”. A paulistana do verão é “no calor / desacostumada / insegura”, mas mesmo assim “atravessa a rua / revela-se quase / sem querer”. E essa revelação tem suas peculiaridades:

beleza ZL / descolada / fingida pedra / desce da penha / retrô querendo-se moderna

A origem da personagem é bastante significativa. Ela não é nem do centro nem dos bairros conhecidos. É da ZL (Zona Leste), da Penha, da periferia. No poema aparece a palavra “descolada”. Segundo uma das definições do Dicionário Houaiss descolado é uma gíria e quer dizer: “habilidoso na resolução de questões, no trato com as pessoas etc.; esperto”. Apesar de desacostumada e insegura a paulistana de verão é descolada, esperta, com certeza vai saber se virar ao caminhar pelas agitadas ruas da cidade. A personagem metamorfoseia-se, transfigura-se, é dissimulada, “fingida pedra”. Ela é instável, camaleônica, busca uma identidade, “retrô querendo-se moderna”. É um pouco como a própria cidade de São Paulo, não tem um rosto, uma definição ou uma identidade consolidada, está sempre em movimento, querendo ser notada por suas particularidades.

o vento / leva-lhe a quase  / saia / e vê-se a joia  / surpresa lapidada // que desaparece na boca quente / do metrô

Por aparecer assim de forma tão surpreendente e inesperada no cenário urbano a “Paulistana de verão”  descolada e corajosa não está livre das intempéries do tempo: “o vento / leva-lhe a quase / saia”. Mas esse vento com sua força impulsionadora também revela aquilo que era escondido pela própria personagem “a joia / surpresa lapidada”.  O fim do poema sugere muitas reflexões. A personagem “desaparece na boca quente do metrô”, locomotiva dos nossos tempos, símbolo da velocidade e do progresso de São Paulo. Temos aí uma ruptura importante. Enquanto caminhava pelas ruas a paulistana de verão com sua saia surpreendente e mínima era o centro das atenções, sujeita aos olhares dos transeuntes e à força do vento. Quando é tragada pelo metrô ela parece perder a aura, se torna uma anônima no meio dos milhares de passageiros, será apenas mais um rosto na multidão. Na rua de movimento irregular e incerto ela tinha certo poder, a aura da beleza ZL, descolada. No metrô de movimento regular e sistemático a paulistana de verão não vai poder se dar ao luxo de se exibir nem mesmo de vacilar e hesitar diante de plataformas, escadas rolantes, portas automáticas e incontrolável empurra-empurra. A “Paulistana de verão” segue a tradição de certa poesia moderna de personagens solitários, individualistas, excêntricos e desajeitados na sua relação com a cidade.

Eric Ferreira Dantas

Jardim Alheio, 20 de Março de 2013

Críticas no blog

JA LOGODurante o ano de 2013, recebemos no auditório da Livraria Martins Fontes, 8 autores cuja obra estudamos em detalhe:

Frederico Barbosa, Ricardo Lísias, Carlos Felipe Moisés, Raquel Naveira, Evandro Affonso Ferreira, Noemi Jaffe, Andréa del Fuego e Andréa Catrópa.

Inúmeras pessoas participaram de nossas oficinas de texto, produzindo críticas que foram discutidas com os próprios autores, e que agora serão publicados aqui.

Em 2014, a partir do dia 11 de março, estaremos começando nova etapa dos Ciclos de Crítica na Casa das Rosas. Contaremos com a participação de nada mais, nada menos, que  Ignácio de Loyola Brandão, Paulo Henriques Britto, Cristovão Tezza e Lourenço Mutarelli!

Fique atento às informações, inscrições serão gratuitas porém as vagas são limitadas.

Jardim Alheio

(Emerson M. Martins e Vivian H. Schlesinger)