CRÍTICA DE FABIANO FERNANDES GARCEZ AO ROMANCE O CÉU DOS SUICIDAS DE RICARDO LÍSIAS

BUSCA ALUCINADA

EMM-04112013-05

Ricardo Lísias ainda está sob o estigma de um jovem autor, mesmo depois de ser finalista dos prêmios Portugal Telecom de 2006, com Duas praças, Jabuti de 2008 com Anna O. e outras Novelas, ganhar o São Paulo Literatura de 2010 com O livro dos Mandarins, anteriormente já havia publicado Cobertor de estrelas (1999),  Capuz (2001), Dos Nervos (2004) , e os infantis: Sai da Frente,Vaca Brava (2001) e Greve Contra a Guerra (2005).

Em céu dos Suicidas (2012) temos a perspectiva do narrador e protagonista Ricardo Lísias: é um especialista em coleções, que ao longo da vida se desfez das suas, porém está em busca de um item valioso que se perdeu, sua procura são os motivos que levaram seu melhor amigo André a cometer o suicídio, com isso fatos passados e presentes embaralham-se nesta busca alucinada de alguém que se sente culpado por não perceber como uma vida podia ser salva. Já que não pode salvar seu amigo em vida, tenta salvá-lo na morte: quer ter a certeza que seu amigo foi para o céu, já que para várias religiões os suicidas não têm esse direito.

Coincidência ou não, Ricardo Lísias dedica o Livro dos mandarins a André Silva, um amigo que morou com ele em uma república na Unicamp e que se suicidou. Outra coincidência é o personagem protagonista e narrador da trama ter o mesmo no nome do autor, o que torna difícil para o leitor identificar o relato como uma narrativa biográfica ou ficcional.

Ao confundir o personagem com o autor alguns leitores acabam por confundir o escritor com o personagem. Ricardo Lísias, o escritor, conta que isso já lhe trouxe algumas complicações, pois um leitor disse que esperava que ele fosse agressivo da mesma maneira que seu personagem.

Estruturado em 90 capítulos de, em média, uma página, perfeitos para quem tem pouco tempo para ler ou tem de se valer de uma leitura fragmentária, pois cada micro-capítulo apresenta unidade narrativa, assim pode ser lido como pequenos contos autônomos.

O autor utiliza essa estrutura, segundo pesquisas, pois surtos psicóticos têm curta duração, assim o narrador por estar em processo de surto, vai ao longo do romance se transformando, ao ponto de por diversas vezes sua mãe dizer que não o reconhece. Com o passar das páginas o narrador vai se mostrando cada vez mais rancoroso, irritadiço e agressivo com as pessoas que lhe cruzam o caminho. Palavras, mais precisamente verbos, como: gritar e chorar são repetidas com grande frequência ao longo dos capítulos.

Ricardo Lísias, o narrador, vai adquirindo comportamento muito parecido com o que tinha André, rompe várias relações, inclusive profissionais. Talvez sua busca frenética acabe por fazer que ele se transforme no amigo, passa a apresentar taquicardia e suores, sintomas dos surtos ou de alguma síndrome, como a do pânico, por exemplo.

As histórias paralelas que surgem no romance, a árvore genealógica da família, a viagem ao Líbano e o passado do tio-avô acabam por ser uma crítica, não só as instituições, familiar e religiosa, como também à toda e qualquer tradição.

A linguagem leve, mas concisa, de forte base oral, alucinada e, por vezes, cômica torna a leitura de O céu dos suicidas muito divertida e agradável, porém isso esconde um árduo trabalho de reescrita, Lísias conta que escrevia cada capítulo, assim como todos os seus livros, à mão, em uma folha de papel almaço.

Lísias pesquisou por um período de seis meses sobre várias visões religiosas, filosóficas e da psicanálise sobre o suicídio. Para ele o processo de pesquisa é essencial para o embasamento do texto, segundo depoimento dado à revista Língua Portuguesa.

Neste livro seja pelo tema abordado ou pela forma criativa e intensa Ricardo Lísias, o autor, se consolida como um dos maiores nomes da literatura nacional.

Fabiano Fernandes Garcez

Jardim Alheio, 13 de Maio de 2013

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