Ciclo ILB – ELIANA STELLA

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Por – ELIANA STELLA – 01/04/2014

CRITICA do Livro – ZERO,  IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

 

MEA CULPA (?)

Tenho sessenta e quatro anos, sou brasileira e não havia lido Zero de Loyola Brandão. Quando Brandão acabava de escrever o livro, em 1969, eu acabava de entrar na PUCSP, mas num curso não reconhecido e vivia a ressaca de um ano nos Estados Unidos como estudante de intercâmbio. Viajara quatro dias num trem que levava soldados para o Vietnã. Vira e me fascinara com hippies distribuindo flores nas ruas de San Francisco. Nos pais ‘defensor da democracia’ tivera minha correspondência violada por acharem que eu era uma agente comunista infiltrada, só porque respondera honestamente em aula à pergunta de porque os latino-americanos se opunham à intervenção norte-americana em seus países….afinal, ‘somos países irmãos!’…

 

Tenho sessenta e quatro anos, li Zero, de Ignácio de Loyola Brandão pela primeira vez, porque faço parte de um grupo de leitura. Sempre preferi ler sobre a violência do homem contra o homem em língua e países estrangeiros, porque dói menos.

 

 

O LIVRO.

Com linguagem irônica, realista e insólita, gêneros e registros variados, Zero nos transporta pela insanidade da experiência humana. Escrito para denunciar uma época, trata de um enredo que vem se repetindo desde o começo dos tempos. O que varia é a aparência, o cenário, a linguagem, mas os humanos são sempre os mesmos.

 

A trama se desenvolve em um ambiente surrealista, cujos atores estão bem representados pelos habitantes do Boqueirão, vizinhança ao redor de um circo de excentricidades, administrada pelo protagonista, José, em que a atração mais popular é um ser humano normal. O autor ousou pintar e dar voz a seus figurantes e personagens, naquilo que cada um tem de mais autêntico, seus diferentes falares, registros. Dá voz, inclusive, a emoções como raiva e dor com criatividade bem própria, sem qualquer pudor.

 

A vivência jornalística do escritor está presente na forma fragmentária que caracteriza o romance, inclusive visualmente, com diagramação peculiar, seguindo colunas duplas dos jornais, pequenos comentários ou informes ao lado do texto, que interrompem a narrativa, inserindo o leitor nesse contexto polifônico, o circo em que os dramas e tragédias se sucedem.

 

O autor não suaviza a linguagem nem os temas, o que contrariou (e ainda contraria) as camadas mais conservadoras da sociedade do ‘país mais católico do mundo’, que apoiavam o governo em defesa dos ‘bons costumes’. As editoras brasileiras alegavam ser o formato não linear do livro impedimento para sua publicação. Assim, o romance foi finalmente lançado pela primeira vez na Itália, em 1974, cinco anos após sua conclusão. Chegou a vir a público no Brasil em 1975, sendo recolhido pela censura, logo depois.

 

O romance conta o trajeto de José, filho de mãe típica escrava do lar, católica fervorosa, e de pai que não podia ver rabo de saia. Aos dezoito anos, sai de casa, e o encontramos, no início da história, como matador de ratos em um cinema. Os ratos são eliminados e ele fica sem emprego. De subemprego a desemprego acaba se tornando franco atirador, envolvendo-se com as atividades revolucionárias de Gê, líder dos comuns – com letra minúscula pois assim determinava a lei.

José se casa com Rosa, que conhece por meio de uma agência matrimonial. Rosa, de passado duvidoso, trabalha numa lanchonete, e busca no casamento a redenção de seus ‘pecados’ e ascensão social: ela quer uma casa só dela, que possa mostrar às amigas, afinal, ‘quem casa quer casa. ’… e geladeira, fogão, sala de jantar completa…..

 

Rosa quer a vida ‘burguesa’ dos anúncios dos patrocinadores e das telenovelas. José não quer nada com a vida, fica contente por não ter feito nada, absolutamente nada, na vida. Não sente remorso e até se orgulha de suas contravenções que escalam para a criminalidade, culminando com o trabalho como matador. ´

 

A narrativa, ora em terceira pessoa, ora em primeira pessoa (as reflexões de José), é entremeada e interrompida por anúncios, inscrições de privada, jaculatórias, informativos, quadros, representações gráficas. Cada novo fato vem sob um novo cabeçalho, introduzindo ainda vários outros casos, como o insólito fim de Carlos Lopes, encarcerado pela morte do filho causada pela ausência de atendimento médico, que ilustra a realidade nunca solucionada do serviço público de saúde; ou a evasão dos cientistas e intelectuais do país.

 

A estrutura fragmentária do livro provoca no leitor a sensação de estar ouvindo a um jogral, talvez uma radionovela; ou, ainda, vendo um filme em que vários planos de consciência se misturam numa polifonia que envolve o leitor e o prepara para a inevitabilidade dos fatos.

 

Zero é uma viagem através do universo habitado pelo eterna confronto entre os poderosos, que chegam a extremos para homogeneizar a sociedade a fim de dominá-la, e aqueles que tentam sobreviver pela contravenção, não por uma luta ideológica, mas para se apossar das migalhas que conseguem apanhar pelo caminho.

 

 

‘PENSAMENTO DO DIA:

A cidade se humaniza. Meninas curradas

em plena luz do dia. Ladrões assaltam mulheres

que saem “as tardes para fazer compras.

Ladrões brigam com ladrões

e se matam, se assassinam.

Estaria sendo formado um Esquadrão Punitivo.

Já tinha existido um, anos atrás. Nos tempos heróicos. ’

 

O que foi que mudou?

 

‘…will they ever learn?

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