Ciclo CT- O filho eterno – Cristovão Tezza – Eliana Stella

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O FILHO ETERNO Autor – Cristóvão Tezza – Eliana Stella –  Maio de 2014

Nada do que não foi poderia ter sido.

Herdeiro de uma geração que acreditava que tudo era possível, que mudança e transcendência estavam nas mãos dos jovens que podiam quebrar as barreiras de uma sociedade decadente, que não confiavam em ninguém com mais de trinta anos, Cristóvão Tezza nos oferece em seu livro O Filho Eterno, a oportunidade de refletirmos sobre a realidade do enfrentamento de fatos que não nos é dado mudar, das pedras no meio do caminho que podem destruir nossa crença no pensamento mágico que nos tentava a juventude.

A narrativa onisciente seletiva em terceira pessoa nos coloca dentro da cabeça de um indivíduo que chega à idade adulta sem ter atingido o que era considerado o status social definido: vive à custa da esposa, não terminou a faculdade, e almeja tornar-se escritor, apesar das tentativas frustradas.

Depois de buscar por vários meios libertar-se do sistema, pelo teatro, a aventura de estudante e trabalhador ilegal na Europa, havia cedido ao sistema e se casara. Desejava ardentemente ser reconhecido e admirado pelos outros como um adulto típico, ainda que cativo dos conflitos entre ideologia e inadequação, sonho e incompetência. Prestes a sedimentar uma de suas posições na vida, a de ser pai, a chegada de um filho, que lhe permitiria se impor frente ao grupo, amigos e parentes o frustra, uma vez que a criança é portadora de síndrome de Down, na época conhecida como mongolismo – ‘Nem filho sabe fazer direito… Que decepção’.

A reação do protagonista a esse acontecimento inesperado, descrita com objetividade e realismo, é mais comum do que possa parecer. É natural esperarmos que nossos filhos, como tudo o que produzimos, sejam motivo de admiração, que nos promovam aos olhos do grupo, que nos eternizem. Porém, um indivíduo com Down, é o filho eterno, tem limitações e não corresponde nunca a nossas expectativas de perpetuação por meio de nossos herdeiros. Felipe nunca seria capaz de conhecer sua obra.

O filho quebrou-lhe a espinha.

Difícil encarar nosso desejo primitivo de eliminar aquilo que nos confunde que não queremos aceitar. Ecos de uma pobreza imortal, que nos coloca de cócoras, reverberando pelos séculos a vergonha de estar vivo. Aquele nascimento às avessas expulsa o protagonista do paraíso, que perde o privilégio de ser livre.

O foco da narrativa, baseada na própria vida do autor, só foi possível depois de vinte anos. Relata a luta desse indivíduo em aceitar o filho. O percurso seguido por esse pai passa pela negação, e desejo de eliminar o que encara como problema a ser resolvido; a raiva, a sensação de injustiça para alguém que acreditava estar no caminho em busca do homem livre idealizado, do sonho rousseauniano, longe do sistema, estabelecendo suas próprias regras, e, ao invés disso, ter que aceitar o tratamento behaviorista do filho, sistema de regras impostas de fora para dentro.

Submete-se ao que seja necessário, na esperança de conseguir que Felipe supere suas limitações e se transforme numa criança ‘como as outras’. Sofre com a dura percepção implacável de ter passado para o outro lado, de estar condenado à escravidão do momento que não consegue dominar, para finalmente aceitar e descobrir a falta que o filho lhe faz, quando teme perdê-lo.

Assim, o filho adquire o direito de sê-lo, e ainda forja o pai.

Em suas reflexões ao longo do processo, relata seu caminho desde a infância à juventude, comum a muitos jovens daqueles anos em que se buscava o desenvolvimento interior, a transcendência, que nos levaria à liberdade total.

Considera ainda, como um paralelo, a ditadura no país, frustrando todos os sonhos democráticos dos povos.

O Filho Eterno, de Critóvão Tezza, é uma história de luta interior, escrita em linguagem clara e honesta, reflexo da realidade sem reservas, retratando não só o drama de um pai em formação, como de uma época que também sofreu grandes modificações.

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