Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Emerson Moino Martins

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O dinossauro filológico de Cristovão Tezza – por Emerson Moino Martins  – mai/2014

 

Pode-se dizer que é sobre os últimos pensamentos do dinossauro o romance “O professor” de Cristovão Tezza.

Dinossauro, não porque o autor fale a respeito, ou se quer, mencione o grupo de diversos animais membros do clado e da superordem dos arcossauros, que apareceram há pelo menos duzentos e trinta milhões de anos, mas porque conta os últimos pensamentos de um professor de filologia românica, matéria talvez extinta do interesse dos novos falantes de nosso idioma; ou ainda de forma mais soturna, porque descreve um protagonista velho e extinto diante do espelho, com a missão de “em 30 minutos, passar a limpo a (si) mesmo”. O dinossauro professor de filologia talvez seja a paródia jâmbica pontuada nos pensamentos desse protagonista; mas, o homem dinossauro, ser extinto diante do espelho, tentando recuperar suas imagens sínteses, é o cerne da trama, que se não é simpática ao leitor, pelo menos conta com sua velada empatia.

O romance toma seu curso durante o momento do despertar de um homem na manhã de sua homenagem de Mérito Acadêmico. Toda linearidade temporal é diluída no decurso de seu fluxo de pensamento, que ora mergulha na profundidade das memórias que marcaram sua vida, ora retorna ao seu presente.

O que encontra esse personagem Heliseu em suas memórias? Suas companheiras. Em seus últimos trinta anos de vida, o que salta de suas memórias é a história de seus relacionamentos, Mônica, Therèze, Dona Diva e a mãe. O personagem entende seu mundo a partir da relação com essas mulheres chaves, que lhe trouxeram o sentido de homem. Talvez o sentido de toda essa busca seja reencontrar sua mãe em todas elas, caracterizando a típica relação edipiana engendrada em todos os seres humanos. Mônica, esposa, mãe de seu filho homossexual, oriunda de fora do contexto acadêmico representa a ideia de modelo familiar de construção e desgaste. Therèze, a amante judia, surgida dentro de seu meio intelectual, é o contraponto ao peso do arquétipo familiar em crise. Com sua característica de mulher independente, areja sua vida e renova suas experiências. Dona Diva, a governanta, mulher assexuada, é quem o acompanha em seus trâmites finais e cotidianos de contato com a vida. Em todas elas, sempre uma busca cega pelo ideal de carinho, perdido de sua mãe, morta em um acidente. Curioso notar que em todo esse percurso, seguiu a instrução para a escolha da fêmea que seu pai lhe ensinou “case com uma mulher feia”. O autor tomou o cuidado de ressaltar que nenhuma das mulheres do Heliseu era uma beldade, destacavam-se e o seduziam por sua forma de ser, e não pela beleza.

Outro drama que flutua na viagem por suas memórias é sua relação com o filho. Mais que aceitação moral de sua natureza homossexual desse filho, fica intrínseca a dificuldade de reconhecimento de sua própria imagem refletida no filho nessa condição. Nessa relação não há uma negação ao filho, mas a negação de seus próprios fracassos no relacionamento com suas mulheres: “Senhores, o inimigo é uma mulher.

Cristovão Tezza, para trabalhar a intensidade desses dramas, cria um narrador que convenientemente se desloca da primeira para a terceira pessoa, cindindo a memória. Há momentos em que mergulha em um Heliseu analítico, distante, falho, para em seguida, retornar ao Heliseu pessoal, resultante desse outro Heliseu. Essa separação espelha a dificuldade que o personagem, e a maioria dos seres humanos, têm em entender a si mesmo. Torna-se mais fácil criticar um outro algoz, ainda que personificado de si próprio, do que a constatação do eu como fracasso. Nessa conveniente separação do narrador proposta pelo autor, a primeira pessoa é o eu vitima, resultado do outro eu que agiu.

O momento histórico, a década de 80, o contraditório surgimento da “nova república” brasileira, o fim das utopias que povoavam as cabeças da década de 70, serve a priori como pano de fundo de acontecimentos dessas memórias, mas, é possível pensar também de forma metafórica ao contrário. Podemos pensar que a representação desses fracassos sentimentais seja o espelho do fracasso desse momento histórico. O autor não resgata das memórias um herói de sua própria história, mas um homem comum, que falha ante sua própria moral.

Os momentos filológicos que recriados na narrativa, mais que uma caracterização do personagem Heliseu, podem ser entendidos como a busca por recuperar a memória do que vai sendo perdido nas transformações do cotidiano. A história que vai sendo perdida no uso da linguagem, sua gênese semântica. Esse movimento de resgate é também a tentativa de reencontrar os motivos que originaram os dramas do personagem, como a metáfora para entender as raízes daquele momento histórico.

O romance “O professor” expõe a obsolescência do homem ante a sua própria história; em resumo dos fatos, e em qualquer síntese que se tente produzir, ele será sempre o dinossauro deslocado de seu tempo.

 

 

 

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