Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Fabiano Fernandes Garcez

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O professor: A aula de Cristovão Tezza – Fabiano Fernandes Garcez – maio/2014

 

Um dos maiores romancista do país, sem sombra de dúvidas, é Cristovão Tezza. Publicou mais de uma dúzia de livros, foi traduzido para inúmeras línguas, com o livro O filho eterno, 2007, ganhou os principais prêmios literários do Brasil: Jabuti, Portugal Telecom, APCA, entre outros.

O professor é seu mais novo romance, divido em capítulos de aproximadamente dez páginas, de leitura fácil, fruída e melodiosa, experimente ler em voz alta! O personagem principal, Heliseu, é um velho professor de filologia que está prestes a ser homenageado pela universidade onde trabalha. O enredo centra-se nas poucas horas em que Heliseu tem para se arrumar e preparar seu discurso para a ocasião.

Um fato interessante da biografia de Tezza é que, antes de se dedicar exclusivamente à literatura, lecionou língua portuguesa na UFSC, outro fato curioso, em A suavidade do vento de 1991, o personagem principal também é um professor. Diferente deste o personagem de O professor não é escritor, observe o que Heliseu diz a respeito:

(…) – eu poderia ter sido escritor se tivesse tido coragem no momento certo”.

O livro foi lançado em 2014, e surpreendentemente apresenta fatos muito recentes, como, por exemplo, a renúncia do papa Bento XVI, anunciada em fevereiro de 2013. Esse fato por muitas vezes acaba por virar o parâmetro para a mudança dos tempos, pois Heliseu logo nas primeiras páginas anuncia ser um homem antigo.

Outra surpresa é o fato de inúmeras vezes o personagem, por ser filólogo, em alguns trechos narrar em português arcaico. O que é muito interessante para os amantes ou estudantes da língua.

O foco narrativo é o fluxo de pensamentos do professor horas antes da homenagem que receberá. Heliseu tenta não apenas imaginar seu discurso, mas também buscar o sentido da vida nele:

“– o sentido de sua vida, ele decidiu com um sorriso, quase sem ironia, o indicador e o polegar traçando uma linha horizontal imaginária no ar, (…) – o sentido da vida. De onde tirei essa expressão, alguém me disse isso falando sério”.

Ao organizar seus pensamentos e sua memória, sob os sentimentos de perda e: de culpa pelo falecimento da esposa, Mônica, ao cair do sétimo andar; de inabilidade de compreender as opções do filho e decisão de ir morar e constituir família nos EUA; de abandono, pois a amante, Therèze, que ao completar sua tese, com a ajuda de Heliseu, volta para a França; além da recordação do depoimento que dá ao delegado que cuidou do caso da morte da esposa, a quem chama de Inspetor Maigret, em referência explícita ao detetive de Simenon.

Heliseu relembra fatos políticos marcantes, divaga sobre suas causas e consequências, busca um inimigo a quem combater, enquanto se levanta da cama, vê a chegada da empregada de anos, toma café e se arruma para o evento.

Para unir fatos e memórias Heliseu simula seu discurso, dessa forma cria um interlocutor, a quem ele escolhe ser: Senhores, o que dá ao livro um interessante tom de oralidade:

“Eu estava, senhores, no meio do caminho: entendam”.

O que mais impressiona em O professor é destreza de Cristovão Tezza ao unir dois narradores: o primeiro é em primeira pessoa: os pensamentos de Heliseu; a segunda, em terceira pessoa: um narrador observador que serve como um auxiliar para o primeiro. Fazendo analogia ao cinema, é como estivéssemos vendo uma cena cuja câmera, em close, em Eliseu e ouvíssemos uma voz em off, — o narrador de primeira pessoa:

“Por que você não gosta dela? Eu senti ali o peso da ocultação, dela quem? – ela estava me enganando. O que, automaticamente, me dava o direito de – e Heliseu levantou-se do vaso, uma breve onda de suor na testa, apertando a descarga na parede como um gesto de apoio para o corpo que parecia tremer de frio (…)”.

Neste livro Tezza se mostra mais seguro de sua linguagem e de sua proposta literária. O professorHeliseu é um conservador estudioso do arcaico, da antiguidade, porém ao escavar os escombros de sua memória, percebe a inabilidade de se adequar a um mundo dinâmico em plena e eterna mudança e isso nem sempre, para ele, é uma boa notícia, porém para os leitores é uma ótima aula de literatura.

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