Ciclo CT – O professor – Cristovão Tezza – por Vivian H. Schlesinger

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A causa secreta de Cristovão Tezza: a ambiguidade em O professor

Crítica de Vivian Schlesinger

maio/2014


O Professor Heliseu está confuso. Levantou-se da cama com o propósito de preparar seu discurso, que irá proferir ao receber o Prêmio de Mérito Acadêmico. Mas não sabe o que dizer. Sabe que não pode dizer tudo que gostaria. Seu discurso terá de ser ambíguo, como tudo tem sido em sua vida. Esse é o dom recebido de seu hábil criador, Cristovão Tezza.

Usando a memória como via de acesso, mas tempo e espaço como plataformas múltiplas de aterrissagem, Tezza leva seu personagem a contar duas histórias: uma pessoal, de um filólogo, amante mais das palavras do que das pessoas, e outra do Brasil, de milhões de pessoas comuns à mercê de seu tempo, política, economia, tabus. Enquanto Heliseu faz sua rotina matinal, detalhe por detalhe, “a enxugar os dedos, reentrância por reentrância, sentindo as calosidades”, machadianamente dentro de três cômodos (dormitório, banheiro, copa), vai conversando com si próprio décadas mais jovem, reconstruindo, “azulejo por azulejo” seu casamento com uma mulher mal-humorada, sua relação sempre ruim com o filho homossexual, sua paixão por uma aluna judia, francesa, vinte anos mais jovem. A cada movimento, seja escovar os dentes, desabotoar o pijama, sentar-se no vaso sanitário, Tezza desnuda esse velho até deixá-lo só com esperança de recomeçar: “Eu poderia ter uma longa conversa com o meu filho sobre o amor.

Mas engana-se quem procura pistas para um julgamento final: tudo neste romance é ambíguo. A começar do próprio protagonista, ora narrador de si, ora observador pretensamente objetivo, que não consegue aceitar as causas de descaminho de seu casamento. Na política, sua grande convicção é que ela é inútil, mas não enfrenta o patrulhamento ideológico da universidade, nem mesmo para afirmar sua neutralidade. No amor, ama, mas nem tanto – falha no momento em que é testado: esquece ou omite propositalmente o nome da aluna a quem tanto devia. Confessa, “tudo que havia de novo em meu trabalho tinha o dedo criador de Therèze (…) e no meu paper, por alguma misteriosa razão, eu não coloquei o nome dela em nenhum lugar…”

Contradições importantes também aparecem na esposa, “Mônica-mnemônica“, que, apesar da prodigiosa memória, não tem qualquer entendimento dos fatos que lembra obsessivamente. Sua sexualidade é posta em dúvida, pela presença da desagradável Úrsula, “que também implantou o cheiro de cigarro em casa” – aos olhos de um machista, uma marca masculina. O filho, Dudu, igualmente tem identidade sexual ambígua, mas de forma frontal, e esse é praticamente o único traço importante de personalidade que sabemos dele. Para entender Dudu, basta que o leitor aceite sua homossexualidade.

De longe, a maior complexidade está em Therèze, a amante quase-gazela. Feminina, mas muito independente, “um tesãozinho, cá entre nós, uma mulher meio despachada…” é toda mulher, mãe, amante, mas como todo judeu, tem identidade no mínimo dupla, judia e francesa. Essa ambiguidade surge no texto de forma recorrente, tanto no olhar da própria personagem (“Ninguém pode deixar de ser judeu; meu pai me disse uma vez, seria como o Ocidente renunciar a si mesmo.”) como do protagonista (“Therèze é nome de judia? Acho que você é uma cristã-nova, eheh.“) A complexa identidade de Therèze assume igual importância para Heliseu que para ela mesma. Nisso, Cristovão Tezza demonstra intimidade com literatura de temática judaica, de Kafka a Philip Roth, onde a busca pela identidade do judeu é um traço essencial.

Essa questão permeia o texto de forma sutil, mas medular. É através da observação cirurgicamente construída de Heliseu, por exemplo, ao ouvir uma conversa a respeito de Therèze, que o leitor percebe o antissemitismo discreto no ambiente universitário: “…a amante, mãe solteira, parece que judia (daquelas não praticantes, mas judeu é judeu)…” Ao mesmo tempo, com igual sutileza, o autor dá a entender que Heliseu não compartilha desse preconceito. O leitor sabe, mas não sabe como sabe. Quando Tezza afirma, em diversas entrevistas, que O professor é o romance de sua maturidade literária, está coberto de razão.

Enquanto Therèze busca definir sua identidade, ora aludindo à herança amorosa do pai, ora morando em Israel (“…eu preciso de um sentido.”), deixa claro que não depende de Heliseu para encontrar-se. Ele, ao contrário, percebe – ainda que tardiamente – que só estando em relação é que se sentia vivo. A independência quase militante de Therèze, que ele associa a seu judaísmo, é justamente o que o desestabiliza. Ele a perde não por uma questão religiosa, mas por questão cultural. Como que capitulando, ao final de sua carreira, nesse dia de homenagem, o que ele vê de si é uma imagem muito judaica: “há sempre um toque de holocausto num velho nu…” Só essa frase já valeira o livro. Mas há mais. Novamente, a maturidade literária, mas também a criatividade, brilham.

De personagens ambíguos, nenhum vence a misteriosa Diva. Boa, porque cuidou do menino durante os anos difíceis, mas com um toque de maldade no olhar. Dela sabe-se pouquíssimo além de que é morena, de religião evangélica, magra e silenciosa. Descendente de índios, parece ter sobre Heliseu um certo domínio shamânico. Quanto se deve ao que pode ter visto no dia da morte da esposa, e quanto durante todos os anos na casa, nem Heliseu sabe, mas teme. Mas Diva é quase só espectadora, está ali para testemunhar o ciclo de tragédia que acompanha a família, de geração em geração. Para começar, a mãe de Heliseu, que morre misteriosamente de uma queda, deixa-o com a certeza de que foi morta pelo pai por uma traição. Décadas mais tarde, é a vez da esposa, Mônica, cair para a morte, sem deixar certezas. O próprio Heliseu, que sofreu, na infância, abuso sexual nas mãos de um padre, e pior – que não obteve do pai a proteção contra esse fato grave – permitiu, quando foi sua vez, que seu filho, Dudu, fosse negligenciado por sua esposa e por ele mesmo. Como o narrador é Heliseu, ele não sabe o que pensa Diva, mas temê-la o obriga a recontar a si exatamente o que aconteceu, e com isso, encarar seus demônios internos. O que em tantos romances é resolvido com a facilidade de um diário, fotos ou cartas, constitui aqui uma sofisticada engenharia de descoberta. Um personagem quase mudo obriga o protagonista a falar tudo.

A técnica de Cristovão Tezza vai além. Importantes plot twists surgem e são rapidamente absorvidos na alternância de narrador em primeira e terceira pessoa. Fatos da história do Brasil dos anos oitenta e noventa são contados nas doses exatas da percepção que deles teriam – tiveram – os muitos milhões da classe média, no seu dia-a-dia. Os chavões repetidos pela massa ignorante, o ambiente universitário em sua sordidez e vulgaridade, o atual governo pouco diferente daquilo que prometia pôr abaixo, nada disso escapa às reflexões de Heliseu.

Mas não sem poesia. O presente é um tempo emparedado, azulejado, quase inabitável. Não por acaso, muito desta manhã se passa no banheiro, revestido de velhos azulejos, com rachaduras que surgem para permitir o mergulho desse velho em sua memória: Heliseu no país do espelho. Em momentos de triste lembrança, a rachadura desaparece da vista; volta a doçura da lembrança, volta a rachadura. Em um dos momentos mais tristes, Heliseu se lembra de quando Therèze lhe contou que esperava um filho dele, e ele, cavalheiro honrado, mas muito mais do que isso, imediatamente lhe propôs casamento. “Casar – que ideia! E, após um minuto de indecisão, voltou a me beijar para que eu não ficasse triste, e Heliseu sorriu, reencontrando na parede a fissura do azulejo que havia misteriosamente sumido de seus olhos.” A metáfora da fissura como rota de fuga é preciosa, dá densidade à busca do tempo perdido de Heliseu.

O perfeito equilíbrio entre o passado e presente; a sensação de vida atrofiada e estéril, repetida de geração em geração; a precisão de linguagem; tudo leva o leitor a crer que o final está decidido muito antes da última página. Mesmo assim, é impossível abandonar o romance, e com recompensa: como em Quadros de uma exposição, de Mussorgsky, o tema vai tomando volume, e dá fôlego para que a busca chegue a uma ponta de luz. O personagem parte para sua homenagem imbuído de força para recomeçar. Se a única vida que lhe resta é seu filho, as palavras de perdão entre pai e filho serão a “moeda corrente” para recuperar as chances perdidas da juventude. Esmagado com o peso maravilhoso de uma folha, o leitor vira a última página.

 

 

 

 

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