Ciclo ILB – André Telucazu Kondo

EMM-010414_23

Zero – André Telucazu Kondo – 01/04/2014

Comprei um exemplar de Zero em um sebo, 1ª edição, 1975. Queria ter a sensação de segurar um proibido documento histórico (em 1976, o livro foi censurado). Mas seria apenas isso? Um banido registro de uma época de ditadura militar, sombria como o corredor de um sebo com ratos roendo ficções e regurgitando meias verdades? Confesso que senti irritação/vertigem já na primeira página. Que diabo era aquele monte de palavras cuspidas no papel de forma caótica? na minha cara? Acostumado às saborosas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão, eu não estava preparado para digerir esse amargo “romance pré-histórico”, como é definido na folha de rosto. Tapa na cara. O livro realmente parece preceder qualquer história como a conhecemos. Com inscrições rupestres (desenhos, símbolos, rabiscos), gritos guturais (onomatopeias, anúncios), Zero desperta nossos instintos que se antepõem a qualquer racionalização. E por não estar no campo de paradigmas racionais, a princípio, incomoda.

Li todo o livro-mosaico-truncado em transporte público lotado. Sim, esse é o melhor lugar para se ler Zero, em desconforto, com os personagens do livro ao lado, na mesma jornada, de pé, suarentos, sofridos, exaustos, enlatados: recortes humanos de um “país da América Latíndia”, hoje. Histórias paralelas como trilhos. Quem corre sobre nós?

Embarquei com José, o exterminador de ratos (depois de homens), administrador de um show de aberrações. Leio o anúncio no livro: “A maior raridade da natureza humana: um homem normal”. José se casa com Rosa que quer casa: “Será que a nossa casinha é bonitinha como as outras?”. Olho pela janela do trem e vejo as submoradias, igualmente feias. No metrô: um trombadinha rouba a bolsa de uma moça e escapa ao fechar de portas. No livro: José se torna ladrão. Todos querem coisas. Talvez eu estivesse viajando sobre o corpo de Rosa, que foi retalhada em um ritual de Igê-Sha e jogada “nos buracos onde o Metrô estava sendo construído”. Leio em uma das telas informativas do vagão: Mulheres idosas já tem isenção garantida – Lei 15912/2013. A tela mudou: “Violência em SP – Bando era especialista em explodir caixas de banco…” Mudou? José se junta a um grupo de guerrilheiros liderados por Gê. No livro: “O senhor era o pai de José Gonçalves, assassino, terrorista, assaltante. O que me diz sobre seu filho (?) – .Nada tenho a dizer… A vida dele, era dele. Fez o que quis – ?Estava certo roubar, matar, torturar – ?O senhor veio entrevistar ou julgar”. No metrô, um pedinte: “eu podia estar roubando, podia estar matando, mas estou aqui…”. Não há o que julgar em Zero. Não há inocentes nem culpados, apenas o homem comum que quer viver livre mas não sabe como (ou não o deixam). No metrô, um jovem (jovem demais) diz: black bloc o caralho, tem que descer o cacete, bom mesmo era na época da ditadura. No livro: José pergunta a Gê, líder da guerrilha (ungido?) se ele não gostaria de ser feliz. Ele responde que já é feliz e que ficaria triste na hora da morte, porque “estou sendo cortado de uma coisa, onde eu podia dar mais e mais”… Tanta gente nesse mundo que parece desperdiçada… Pííííííííííííí. Fecha a porta.

Zero não é um registro morto para ser lido parado. Definitivamente, é um livro vivo que nos põe em movimento. Para lê-lo, basta abrir bem os olhos.

Corro pela escada da estação da Luz e ouço alguém de uniforme chamando lá do alto: José! Uma multidão desce. Não escuta ou ignora o chamado. Apenas segue em frente. José? Aceno em seu lugar e continuo a devorar os degraus do subterrâneo, pensando que não teria feito diferença se eu tivesse comprado a edição mais recente de Zero, no mais moderno bookstore. Em qualquer tempo, em qualquer lugar, os ratos continuam famintos.

Anúncios