Crítica de Eric F. Dantas ao poema Paulistana de verão de Frederico Barbosa

EFD

A ETERNA PAULISTANA

No poema “Paulistana de verão” (Landy, 2002), de Frederico Barbosa acompanhamos o percurso (in)certo da personagem pela cidade de São Paulo.

branca / segura a saia / surpreendente e mínima / como quem não / se sabe mostrar

A personagem é uma mulher branca e desajeitada caminhando pela cidade moderna e devoradora. Mas é uma mulher que quer firma-se também através do corpo ao vestir “saia surpreendente e mínima”. Mas nesse ato de coragem e ruptura a personagem aparece “como quem não / se sabe mostrar”, ou melhor, se mostra do seu jeito, um jeito muito particular. Na cena narrada, há perda da inocência, mas também certo pudor, pois no turbilhão da cidade moderna tudo é incerto, as reações podem ser imprevistas. A personagem sabe que pode correr riscos ao se expor ao público das ruas, pode ser vítima tanto do machismo como de opiniões mais conservadoras e politicamente corretas, em poucas palavras, ela é um alvo em potencial, por uma razão ou outra não vai passar despercebida.

no calor / desacostumada / insegura  / atravessa a rua / revela-se quase / sem querer

Na travessia pela cidade temos a personagem “no calor / desacostumada / insegura”.  Podemos traçar um paralelo com a canção “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A “Paulistana de verão”, de Frederico Barbosa é a anti-Garota de Ipanema. A comparação pode parecer injusta e fora de lugar, mas nem tanto. Apesar de serem diferentes Rio de Janeiro e São Paulo têm muitos pontos em comum, são cidades-personagens que fazem parte da nossa modernidade e do nosso imaginário cultural, inspirando músicos e poetas, podem ser consideradas as cidades que têm o melhor e o pior do Brasil. Pois bem, se a garota de Ipanema “É ela menina que vem e que passa / Num doce balanço, a caminho do mar”. A paulistana do verão é “no calor / desacostumada / insegura”, mas mesmo assim “atravessa a rua / revela-se quase / sem querer”. E essa revelação tem suas peculiaridades:

beleza ZL / descolada / fingida pedra / desce da penha / retrô querendo-se moderna

A origem da personagem é bastante significativa. Ela não é nem do centro nem dos bairros conhecidos. É da ZL (Zona Leste), da Penha, da periferia. No poema aparece a palavra “descolada”. Segundo uma das definições do Dicionário Houaiss descolado é uma gíria e quer dizer: “habilidoso na resolução de questões, no trato com as pessoas etc.; esperto”. Apesar de desacostumada e insegura a paulistana de verão é descolada, esperta, com certeza vai saber se virar ao caminhar pelas agitadas ruas da cidade. A personagem metamorfoseia-se, transfigura-se, é dissimulada, “fingida pedra”. Ela é instável, camaleônica, busca uma identidade, “retrô querendo-se moderna”. É um pouco como a própria cidade de São Paulo, não tem um rosto, uma definição ou uma identidade consolidada, está sempre em movimento, querendo ser notada por suas particularidades.

o vento / leva-lhe a quase  / saia / e vê-se a joia  / surpresa lapidada // que desaparece na boca quente / do metrô

Por aparecer assim de forma tão surpreendente e inesperada no cenário urbano a “Paulistana de verão”  descolada e corajosa não está livre das intempéries do tempo: “o vento / leva-lhe a quase / saia”. Mas esse vento com sua força impulsionadora também revela aquilo que era escondido pela própria personagem “a joia / surpresa lapidada”.  O fim do poema sugere muitas reflexões. A personagem “desaparece na boca quente do metrô”, locomotiva dos nossos tempos, símbolo da velocidade e do progresso de São Paulo. Temos aí uma ruptura importante. Enquanto caminhava pelas ruas a paulistana de verão com sua saia surpreendente e mínima era o centro das atenções, sujeita aos olhares dos transeuntes e à força do vento. Quando é tragada pelo metrô ela parece perder a aura, se torna uma anônima no meio dos milhares de passageiros, será apenas mais um rosto na multidão. Na rua de movimento irregular e incerto ela tinha certo poder, a aura da beleza ZL, descolada. No metrô de movimento regular e sistemático a paulistana de verão não vai poder se dar ao luxo de se exibir nem mesmo de vacilar e hesitar diante de plataformas, escadas rolantes, portas automáticas e incontrolável empurra-empurra. A “Paulistana de verão” segue a tradição de certa poesia moderna de personagens solitários, individualistas, excêntricos e desajeitados na sua relação com a cidade.

Eric Ferreira Dantas

Jardim Alheio, 20 de Março de 2013

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